Mesmo com grupos de finais dos anos 60 incluindo motivos musicais do country no rock psicadélico – como os Byrds, Grateful Dead ou Flying Burrito Brothers –, a realidade é que o rock e o seu primo do campo continuaram de costas voltadas durante anos. E até certo ponto, para lá dos tiques fáceis de encenar e o mais superficial na sua forma, ainda hoje mal se falam. Mais do que distância geográfica, é de estados de espírito diferentes que se trata: o country, feito e dirigido maioritariamente à classe trabalhadora, retratava uma vida que pouco tinha em comum com a dos fãs do rock envolvidos na criação de uma cultura de adolescência eterna. Pouco espanta então que o country que conseguiu quebrar a fronteira venha de uma história de dissensão contra o reinado da produção discográfica de Nashville – do outlaw country, de Willie Nelson, Waylon Jennings, Kris Kristofferson, Johnny Paycheck, Billy Joe Shaver, Jimmie Dale Gilmore ou Butch Hancock. Para os consumidores
de folk britânico ou do folk-rock norte-americano, o despojamento de Red Headed Stranger era só mais uma exótica paragem na exploração das suas raízes históricas. Mas o álbum, conceptualmente gravado em torno da história de um pregador que assassinou a mulher e anda fugido à lei – um conto de amor traído, crime passional e fuga tão típico quanto as reinterpretações de antigas baladas inglesas e irlandesas popularizadas pelos folkies –, era puro rock’n’roll. A inspiração para Jolie Holland, Richard Buckner ou Lambchop – para não se falar numa Carla Bozulich que o regravou na íntegra – passa muito por aqui.
Para comentar este artista é preciso registar-se primeiro.
Não existem comentários. Sê o primeiro a deixar um comentário.