Se Mick Jagger fosse um sonhador ou um filósofo, teria a voz de Van Morrison. Ou seja, entre dois apaixonados por r&b com timbres semelhantes, a distância pode ser tanta como a que se regista entre Astral Weeks e Beggars Banquet. O segundo LP a solo de Van Morrison – vindo dos Them – vendeu pouco na altura do lançamento, mas continuou a vender um pouco mais todos os anos a seguir. Não transformou o seu autor numa estrela, pouco se ouviu na rádio, mas quem o conhece nunca mais foi o mesmo. É uma experiência “Long Play” no verdadeiro significado da sigla – profundamente atmosférico, só faz sentido entrar se for para o acompanhar até ao fim. Com músicos vindos do jazz – como Richard Davis e Connie Kay –, o álbum foi gravado em dois dias, com três semanas de intervalo. Nenhum deles conhecia Van Morrison e a maioria só ouviu o disco muito depois – deixaram-se guiar pela visão do rapaz de 23 anos que lhes pediu apenas que não se censurassem em eventuais digresses e variações. Fluído, evoca viagens e crescimento, experiência e reflexão. Acima de tudo parece pedir ao ouvinte que se deixe guiar e não é difícil obedecer – deriva de forma doce, sem nunca sucumbir a truques de hipnotismo. Se algo seduz é a honestidade e a sincera ausência de mensagem nas letras. Disse Morrison ao seu biógrafo, Clinton Heylin, que eram canções em que se via a luz ao fundo do túnel. O álbum dá vontade de se mergulhar no escuro. Foi das poucas fusões de música popular com elementos tradicionais que não se transformou num beco sem saída.
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