É aquele velho dilema: se alguém é um artista genial com uns copos a mais (ou com qualquer outra substância), quem tem o direito de o transformar num sóbrio empregado de escritório?
Nighthawks At The Diner não dá vontade de salvar Waits – ele que nos salve a nós… ou que nos corrompa, tanto faz. Waits, provavelmente, sabia que em cada caixa de banco e bibliotecário há um impulso mal reprimido de andar por aí até que “the moon was a stray dog on the ridge and the taverns would be swollen until the naked eye of 2 a.m.”, e seduz o seu ouvinte, não com promessas de diversão sem consequências, mas com algo bem mais hipnótico: “a cold caffeine in a nicotine cloud” e “warm beer and cold women”. Nighthawks… era o mais próximo que se podia chegar a ser Tom Waits por uma noite sem causar danos permanentes a nenhum órgão: vagamente intoxicados, hilariantes e com o grupo de amigos que nos seguiu até ao bar mais rasca do bairro preso a cada uma das nossas palavras. Este falso disco ao vivo (ironicamente, com algumas das mais genuínas reacções de público jamais ouvidas), que apresenta Waits em frente a uma plateia de amigos e conhecidos, apoiado por um punhado de brilhantes instrumentistas do cool jazz da Califórnia, vale tanto pelas sentimentais canções tingidas de blues como pelos
monólogos e histórias contadas ao piano, meio stand-up sentado meio poesia beat. O hálito cheira-se através dos altifalantes, mas ninguém resiste em lhe pagar mais um copo.
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