Estava-se mais ou menos a meio da presidência Reagan; os filmes do ano foram Top Gun, Crocodile Dundee e Platoon; nos tops reinavam Robert Palmer e Lionel Richie e Huey Lewis defendia que “It’s hip to be square”; as presenças femininas eram Regina Richards com “Baby Love” e a Diana Ross requentada de “Chain Reaction”.
Mais importante ainda, o mundo ficou chocado ao descobrir que Bobby Ewing afinal não estava morto. Assim já é mais fácil compreender quão estranha era uma banda liderada por duas raparigas de guitarra em riste, acompanhadas de uma baixista com dreadlocks e um baterista com o que podem bem ser as maiores sobrancelhas do mundo, e que, para mais, não era fruto das metrópoles problemáticas de Nova Iorque ou LA mas sim dos arredores queques de Newport. À excepção de “Green”, escrito por Tanya
Donelly, que iria afinar a sua visão nas Belly e depois a solo, Throwing Muses é o retrato mental da sua mais conhecida meia-irmã, Kristin Hersh. A música ziguezagueia entre o punk e o folk – como no melhor de Meat Puppets ou Gun Club – e as letras não oferecem grande conforto (um exemplo: “You built a city in my head then there were candles and a phoenix burned my bed”). Hersh parece querer fazer de Alice e dar uma visita guiada ao seu próprio distúrbio bipolar do outro lado do espelho, onde tudo parece brilhar com uma estranha aura, sem que saibamos se por detrás das portas vão surgir coelhos de cartola, bules falantes ou cadáveres. É o som dentro da orelha encontrada por Jeffrey Beaumont em Blue Velvet. E 20 anos depois, o sonho ainda não acabou.
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