Charles Hayward, Charles Bullen e Gareth Williams foram, como muitos, descobertos por John Peel. E não era fácil apoiar um grupo que desejava aproximar-se do som de um gira-discos a explodir. Inspirados pela Guerra Fria, criaram o homófono Deceit – em que não é inocente que, num jogo de palavras, “este calor” se transforme igualmente no “engano” em que as superpotências se envolviam diariamente. Com um gosto por manipulação de fitas magnéticas, colagens sonoras e exploração pouco convencional de instrumentos, tinham como precedente directo o mais improvisado nos Henry Cow ou Faust e o negríssimo fundo rítmico do Miles Davis de Agharta ou Pangaea. Mas era, ainda assim, a capacidade de criar temas com o mesmo tipo de intensidade das bandas punk que lhes garantiu lugar na História – para não falar já que, nos poucos instantes de organização, não deixam de sugerir uns King Crimson mais desenfreados. Na capa está uma montagem que diz tudo: mapas com arsenais militares, nuvens de explosões nucleares em forma de cogumelo, fotos de Reagan, Brejnev ou Khrushev. Quem procurar conforto emocional, fará melhor em rever Matthew Broderick em War Games, de 83. Deceit já passou à frente da bomba e tenta adivinhar o som do mundo na manhã seguinte – e o facto de se saber que ninguém sobreviveria é o mais importante a reter. Talvez por isso pareça tão actual. Entre referências a Leni Riefenstahl, a leitura da Declaração de Independência norte-americana e relatos pós-apocalípticos, é um manifesto marxista sobre a aniquilação de intensidade inigualável.
Para comentar este artista é preciso registar-se primeiro.
Não existem comentários. Sê o primeiro a deixar um comentário.