Por esta altura capaz de um delicioso fatalismo que ganha tons de comédia comparado com um Nick Cave, de um rigoroso eclectismo que relembra os Legendary Pink Dots menos apocalípticos, de um desencanto social que traz à memória o menos calculado em Billy Bragg, de uma sóbria melancolia sentimental próxima dos Triffids, ou de uns And Also The Trees menos bucólicos, e dedicado a uma sólida, complexa e poética escrita de canções não distante de uns Chameleons, Matt Johnson é daqueles criadores que nunca parecerá do seu tempo. Durante a adolescência tinha assistido a concertos de John Lee Hooker, Howlin’Wolf, Kinks ou Small Faces no pub da família e aí terá ficado o seu coração. Em Soul Mining apoia-se em Zeke Manikya (vindo dos Orange Juice), no piano de Jools Holland (saído dos Squeeze) ou no violoncelo de Martin McCarrick (então o principal responsável de arranjos de cordas na 4AD), e entrega-se a um conjunto de preocupações dolorosamente sinceras e pessoais (“You could’ve done anything if you’d wanted, and all your friends and family think that you’re lucky, but the side of you they’ll never see, is when you’re left alone with the memories”), em que se passa facilmente da esperança (“This is the day your life will surely change”) ao desespero (“I’mcrippled by guilt, blinded by science, I’ve been waiting for tomorrow all my life”). A filosofia de Soul Mining resume-se numa exemplar frase da canção titular: “Something always goes wrong, when things are going right.” Por essas e por outras é que haveria de se dedicar às canções de Hank Williams.
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