Não havia nada mais humilhante do que se ser um pobre jovem branco na Detroit dos anos 60. Entre a Motown e a herança do rock’n’roll reconduzida na invasão britânica, como reclamar um pedaço da cultura? De Los Angeles a Austin ou Nova Iorque (com os Doors, 13th Floor Elevators ou Velvet Underground), a resposta viria pronta a nspirar centenas de bandas e culminar no garage rock. Isto é, para quem não possuía o domínio técnico para alinhar com o psicadelismo, havia sempre a possibilidade de vencer pela fúria. Os Kingsmen, Shadows Of Knight ou os Sonics de Boom assim o comprovaram. E os Amboy Dukes, de Ted Nugent, ou os Mitch Ryder & The Detroit Wheels, evidenciaram que havia também chegado a hora da Motor Town. Iggy Pop personificou em palco tal urgência. Os seus Stooges transformaram espectáculos ao vivo numa confrontação de paranóia e violência nos antípodas da função comunitária dos MC5. Raw Power é o terceiro LP do grupo e tem mão de David Bowie. É um furacão de medo da ameaça nuclear e da guerra, com imagens de filmes Série B de terror, revolução sexual no seu mais instintivo e referências a drogas. Mas na cabeça de Iggy o rock’n’roll é o mais perigoso dos estupefacientes, e canta “Raw Power is more than soul, has got something called rock’n’roll (…) Raw Power is a garanteed o.d.”. Anda à procura de uma “Death Trip”, grita “Gimme Danger”, desespera (“Penetration”, “I Need Somebody”) e descreve-se na perfeição em “Search And Destroy”: “I’m a street walking cheetah with a heart full of napalm, I’m a runaway son of the nuclear bomb”.
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