Pouco antes de os adeptos de futebol e de as girl-bands terem manchado uma impecável reputação mantida ao longo de séculos, já os Britânicos viviam com o sentido de superioridade posto em causa. Em 85, por exemplo, o popular filme Room With A View (Quarto com Vista sobre a Cidade) recordava uma era em que um grupo de turistas da ilha significava um aumento considerável de espirituosidade e pedantismo à mesa de jantar, para não falar já de ascendência civilizacional. Se o fascínio por outras épocas é típico de tempos desinspirados, de certeza que até Morrissey, mesmo com James Dean e os New York Dolls como ídolos, lembrava com nostalgia os romances de E. M. Forster. Os Smiths, com iconografia nacionalista e uma teatralidade próxima de Oscar Wilde, foram acolhidos de braços abertos por aqueles que acreditavam ser necessário reafirmarem-se os princípios da sua cultura. E, à luz desse desígnio, nunca como em The Queen Is Dead brilhou tão forte a centelha do génio de Morrissey e Johnny Marr. Logo por tornar a discussão acessória ao mesmo tempo que padronizava qualquer ideia que se tivesse sobre o futuro da música pop. Entre letras que atacam a
mãe institucional (no tema título) e a igreja (em “Vicar In A Tutu”), para depois admitirem o conforto na maternidade e espiritualidade (em “I Know It’s Over” ou “There’s A Light That Never Goes Out”), nem chega a ser revoltoso – é antes um lamento e um pedido de transformação face ao sufoco das sociedades conservadoras. Era a isto que devia ter soado a versão feminina do punk.
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