É um truísmo dizer-se que os grupos britânicos de 64 e 65 estavam apenas a regurgitar para a juventude americana o rock’n’roll de finais dos anos 50. Mas ninguém teve uma digestão mais ácida do que os Pretty Things, assim chamados devido à “Pretty Thing” de Bo Diddley. Numa retrospectiva sobre a era psicadélica, a revista Mojo relembrou muito do comportamento da banda (fazendo Rolling Stones passar por alunos de seminário – aliás, o seu guitarrista, Dick Taylor, tinha feito parte do primeiro alinhamento do grupo de Jagger) que culminou na famosa imprecação com um produtor (provavelmente Jack Baverstock, neste primeiro LP) obrigado a sair de estúdio gritando: “I’m not spending
another minute with those animals!” Enfim, boas maneiras à parte, Pretty Things é um brilhante registo do r&b mais selvagem que o Reino Unido produziu, e que apenas de tão prematuro não foi abraçado pelos milhares de meninas suburbanas que habitualmente gritavam no aeroporto Kennedy. E a voz de Phil May e o nível da guitarra de Taylor, quase a causar distorção nas versões de Diddley e Chuck Berry, eram já um presságio de Jimi Hendrix e Grateful Dead. Pouco tempo depois, os Pretty Things converteram-se ao recém-criado psicadelismo antes dos Pink Floyd, criaram a primeira ópera rock, S.F. Sorrow, um ano antes dos Who, e viraram-se para o rock progressivo a tempo de ver David Bowie usar temas seus em Pin Ups. Tirando o rasto de destruição, parece que ninguém deu por eles, talvez por irem sempre à frente. Mas ao fim de 40 anos ainda cá andam.
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