Para compreender este álbum, ajudará relembrar que Jonathan Richman era simultaneamente fanático dos Velvet Underground (daí a escolha de John Cale para primeiro produtor) e um apaixonado por grupos vocais femininos como as Ronettes, Crystals ou Shangri-Las. Por outro lado, era um visionário e angustiado líder com pretensões totalitárias. E mesmo com músicos e compositores de talento a seu lado (o guitarrista Jerry Harrison juntou-se aos Talking Heads quando a sua relação com Richman azedou), nunca abriu mão de um rígido controlo artístico. O vocalista, guitarrista e principal compositor dos Modern Lovers foi um dos primeiros, na música pelo menos, a criticar abertamente os excessos da década de 60. E até pelo seu aspecto, de cabelo curto e calças justas – uma espécie de Mathew Broderick em Ferris Bueller’s Day Off, dez anos antes –, evocava antes a década de 50. Não espantava vestir a pele do reaccionário cantando coisas como “I still love the 50s and I still love the old world” ou, pior, “I still love my parents”. Mas o saudosismo ficava-se pelas letras. O som, esse, prenuncia o punk quase cinco anos antes de a onda britânica chegar a costas norte-americanas e indicia a revolução cantada por Patti Smith e Richard Hell. Mas é difícil falar de influências. A maior parte destes temas foram gravados em 72. O perfeccionismo – e insanidade – de Richman, fizeram-nos ver a luz do dia quatro anos mais tarde, quando, para todos os efeitos, os Modern Lovers já não existiam a não ser como seu alter-ego. Um álbum que nasceu perdido.
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