Com uma discografia absurdamente extensa – e 2007 aí está para o comprovar –, os Fall são
daquelas bandas que justificam a produção de teses de doutoramento sobre semiótica e produção cultural. Isto, não fosse o facto de Mark E. Smith vir a seguir contrariar qualquer teoria. Antes de se inventar a noção de politicamente incorrecto, existiam os Fall, dizendo coisas como “Your taste for bullshit reveals a lust for a home office”, “I had to go round the gay graduates in the toilets” ou “Where are the obligatory niggers?”.
Hex Enduction Hour pode querer dizer muita coisa, mas uma boa explicação reconhecerá que a
palavra “enduction”, que não existe, parece combinar o estímulo, de “induction”, e a necessidade de suportar sofrimento, implícito em “endure”. Passar por um exorcismo, quando se é simultaneamente o Diabo e o Sacerdote, é outra boa forma de o descrever, numa perspectiva que tanto funciona para o ouvinte como para Smith. Foi o quinto álbum de originais dos Fall e, como sempre, esteve para ser o último. Não se pode cantar nem dançar a ouvi-lo, e muito menos acompanhá-lo à air guitar. Não serve de música de fundo, em parte porque assenta em dois propulsivos bateristas, em parte porque as guitarras insistem em se manter desafiantemente dissonantes, mas fundamentalmente porque Smith canta como um alcoólico fala: por mais que saibamos que nos vai chatear (como em “Who Makes The Nazis?”), não conseguimos deixar de o ouvir. Um clássico sem o qual não existiriam Sonic Youth, Pavement ou LCD Soundsystem.
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