Não foi o começo dos Clash. E em 79 até se poderia argumentar que a relevância de um grupo punk no encalço de Lee Perry estava já no mais instintivo e primevo do género devidamente sedimentada. Mas foi London Calling – com a capa inspirada em Elvis – que escancarou as portas dos mercados de todo o mundo e reclamou uma inexaurível herança só confirmada a cada ano que passa. E pelo simples facto de, ainda hoje, conseguir apagar da memória as referências em que tão claramente se baseia, não admirará quem lhe reconheça um estatuto de clássico capaz de se impor a cada dia. Tudo pela combinação de estilos, pelo idealismo das letras e pelo talento em bruto no domínio da escrita de canções que só não conduziu a um twist colectivo porque na altura já ninguém se lembrava de como se dança. Em parte pelo impacto dos Sex Pistols no hardcore norte-americano, em parte por aquilo que os Clash fizeram em Sandinista – Kurt Cobain não se cansou de defender os primeiros face aos segundos – a História transformou a banda de Johnny Rotten e Sid Vicious numa espécie de Lennon do punk enquanto se encarregou de equivaler Mick Jones e Joe Strummer à condição de McCartney. Mas não será bem assim. Numa espiral profundamente enraizada não só na produção dos arautos jamaicanos mas igualmente no rockabilly, no folk e no r&b, London Calling foi único e podia ter unido não-alinhados de todo o mundo sem recorrer ao niilismo. Mas era tudo radical de mais para o país que tinha acabado de eleger Margaret Tatcher.
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