É por demais evidente – não só pelas capas –, mas nem por isso dispensável: os Cars foram os Roxy Music norte-americanos. Se uns domavam
instintos progressivos para legitimar manobras de aproximação a um tipo de canção romântica impensável para o glam, outros pegavam naquilo
que de mais instantaneamente vertiginoso, propulsivo e masculino encontravam no hard rock para logo o integrar na impetuosa, juvenil e bem mais enxuta energia new wave. Como não funcionar a imediata força melódica e o investimento narrativo, as guitarras acessíveis à rádio e os sintetizados mantos de cor? Ric Ocasek e Benjamin Orr partilhavam deveres vocais, mas era Ocasek que se distinguia como compositor.
E se nunca parecem deixar de ter na cabeça a ideia de um Lou Reed sem um grama de gordura, deixam-se por vezes assombrar por um tipo
de dualidade bem mais presente em David Bowie. Mas os Cars entram mais profundamente em território rock’n’roll do que qualquer um dos
artistas do seu tempo. Além de que para o sucesso do álbum não se poderá ainda subestimar a presença de Roy Thomas Baker, o produtor de
A Night At The Opera, dos Queen. Só assim o grupo se liberta de um rigoroso princípio de sobriedade para logo começar a sonhar em compor
um açucarado musical. E de certa forma, em “Good Times Roll”, “My Best Friend’s Girl” ou “Just What I Neened” era precisamente isso que
acontecia, numa alternativa ao Grease. Uns anos mais tarde haveriam de se tornar numa espécie de versão respeitável dos Foreigner e fazer as delícias de todos os programadores nocturnos da rádio.
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