Bastaram os Beatles para definitivamente provar que o “dar ao público o que ele quer” não colava. Estiveram sempre em mutação, a contrariar-se e a abraçar novas tendências. E se não fossem tão bons podia ser que andássemos ainda a interrogarmo-nos sobre a existência ou não de música original na ilha do nosso mais antigo aliado. Do vaudeville ao rock’n’roll, do folk ao soul, todas as experiências foram válidas e Revolver levou-os à vida adulta. Lennon considerou-os mais populares que Jesus e os Estados do Sul dos EUA começaram a queimada. Respondeu Paul McCartney: «They’ve got to buy them before they can burn them». Assim se equilibravam as coisas. Rubber Soul aproveitou Dylan para reinventar o som do grupo, mas Revolver levou tudo mais até à beira do precipício. Reza a lenda que foi David Crosby quem apresentou George Harrison ao sitar, aqui protagonista em “Love To You” e “Tomorrow Never Knows”. E pelo meio, couberam referências ao psicadelismo de São Francisco, à Stax, à nouvelle vague, aos Beach Boys, ao folk ácido de Donovan (que contribuiu para as letras de “Yellow Submarine”) e ao LSD de Leary que, baseado no Livro Tibetano dos Mortos, abria também a porta ao misticismo oriental. Mas mais importante do que todas as influências ou técnicas de estúdio (ainda assim longe do ensaiado em White Album), é o crescimento de McCartney, Lennon e Harrison enquanto compositores. Peças de câmara como “Eleanor Rigby” ou “For No One” foram do mais perto que os anos 60 estiveram de ouvir a sua alma sintetizada. Sgt. Pepper’s… foi a paródia.
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