Para voltar ao início é preciso recuar um ano. Pet Sounds, de 66, foi tão escrutinado e recomendado que às vezes se esquece que tudo começou em Today!. E este “tudo” foi – entre álbuns de Beach Boys e Beatles – o pináculo da música popular da segunda metade do século XX. Nada que Brian Wilson não tivesse previsto e, no fim, a razão pela qual se perdeu dentro de si. Da família, era o mais dotado e talentoso compositor, e sentia-se mais à vontade em estúdio do que na estrada. Today! foi o primeiro álbum dos Beach Boys a concretizar um novo acordo: Brian ficava em Los Angeles a compor e misturar canções enquanto o resto da trupe fazia gritar miúdas pelo país fora. A sua primeira metade está próxima do surf pop que tinham até então explorado, só que surge mais intensa, vertiginosa, sonicamente envolvente e com picos em “Don’t Hurt My Little Sister” (escrito com as Ronettes de Phil Spector em mente), “When I Grow Up”, “Help Me Ronda” e um “Dance, Dance, Dance” com deliciosos sinos de orquestra. Mas no Lado B estamos já em território Pet Sounds. Harmonias vocais em sacarina intoxicação com as quais nem os Four Freshmen haviam sonhado, arranjos estereofonicamente sinfónicos tornado humildes por narrativas de desejo e temor pela vida adulta, agudos e
pungentes clamores de Brian e Carl ou súplicas inocentes que se estendem por temas como “Please Let Me Wonder”, “I’m So Young” ou “She Knows Me Too Well” como uma suite de câmara para a adolescência. Não se estava na Universidade de Berkeley, mas Brian Wilson começava em Today! a sua luta pela liberdade de expressão.
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