Algures entre a falta de visão das editoras discográficas e as dificuldades inerentes a uma banda com um dos poucos símbolos sexuais do punk,
os Adverts perderam-se nos buracos negros de 78. Crossing The Red Sea With the Adverts é um dos óbvios álbuns perdidos do período. Nos
essenciais do seu arquétipo – falta de capacidade técnica, velocidade, crítica social, completo desrespeito pelas regras –, não existem assim tantos LPs que em tudo registem. O que se queria eram grupos em que a vontade de criar música fosse vastamente superior à possibilidade de o
fazer, e que a aprendizagem fosse feita em palco, no fio da navalha da aceitação ou condenação por parte de um público mais do que acautelado
sobre a puerícia do género. Nesta história, foi Brian James, dos Damned, quem conseguiu que os holofotes incidissem sobre os Adverts – e era
só disso que eles precisavam para se tornarem músicos. “Gary Gilmore’s Eyes” foi o primeiro single a captar atenções, tanto pela qualidade
quanto pelo assunto que abordava (Gilmore era um norte-americano condenado à pena capital que quis doar os olhos à ciência; a canção retrata
a reacção de alguém que se apercebe ter as córneas de um assassino). Os seis meses que demoraram a gravar o álbum e a inexistente promoção (a editora nem lançou o disco nos EUA) foram suficientes para perder o lugar que era seu de direito. Isso e o facto de, enquanto muitos
tentavam apanhar a camioneta do punk, já os Adverts dela saltavam – o que os torna ainda mais prescientes.
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