O que os Go-Betweens de 16 Lovers Lane fizeram pelo amor, vieram os Spacemen 3 a fazer pelas drogas. Com álbuns intitulados Perfect Prescription e Playing With Fire não será um choque anunciar a eventuais neófitos que os Spacemen 3 cantaram as glórias do consumo de estupefacientes na sua vertente mais espiritual e evangelizadora. Numa linha que vinha das profundezas da história do rock dos anos 60 e continuou anos 90 adentro com Mercury Rev, Flaming Lips ou Primal Scream, sintetizou-se no lema “taking drugs to make music to take drugs to”. Guitarras minimais, tendência para o drone mais fervilhante, paredes de som derivadas de Phil Spector e pontilhadas referências ao mais aliterante dos Suicide e versão actualizada dos Silver Apples, com altos comparáveis ao gospel solarengo dos 5th Dimension e aos Association de “Requiem For The Masses” e baixos em exercícios decalcados do mais exploratório nos White Noise e no que David Axelrod havia criado como pano de fundo no Mass In F Minor dos Electric Prunes, é aquele tipo de disco sem o qual não se conseguiria imaginar o catálogo da Kranky. Apaixonados por um ruído tão libertador quão inibidor,
J Spaceman (futuro Spiritualized) e Sonic Boom (futuro E.A.R.) tinham como único objectivo enunciado a analogia sonora a uma trip. Com letras pouco dadas à pedagogia ou à originalidade (com os “take me higher” e “how does it feel?” da praxe), mergulham em olhos azuis que são oceanos e sobem até queimar os dedos no sol. Mas na música de Playing With Fire tudo se desfaz em milhares de pequenas células coloridas.
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