Às vezes, a influência dos Sonic Youth chega a ser sufocante. Desde que começaram a ditar cartas na cena nova-iorquina de meados de 80, poucas foram as bandas de editoras independentes a atingir alguma notoriedade sem o seu empurrão. E não só se transformaram no arquétipo do grupo alternativo (qualquer dicionário ganhava mais em ilustrar a definição com a sua fotografia), como conseguiram efectivamente moldar os gostos na música popular quando, em 90, apresentaram um trio de Seattle aos administradores da Geffen. Mas se há uma pontinha de ressentimento é só porque às vezes se sente saudades do tempo em que o underground era só para um pequeno grupo de fiéis em vez de mais um género nos catálogos das grandes editoras. Mas para quem se tinha iniciado nas sinfónicas práticas de Glenn Branca sem nunca perder o credo no poder libertário da falta de técnica convencional, era óbvio que nada menos que uma revolução serviria. Como um buraco negro posto do avesso, o contínuo destruir dos resquícios de estrutura da canção – com Arto Lindsay e Lydia Lunch como modelos mas precedente directo no mais nebuloso dos Velvet Underground ou Crazy Horse e no mais evidente dos Black Flag ou Fall – ganhou finalmente estatuto de arte e o grupo (após a integração plena de Steve Shelley) conquistou a epítome de “Ornette Coleman do hardcore”. Daydream Nation foi a excelsa banda sonora desta ascendência. Com Kim Gordon nos 53, Ranaldo nos 50 e Thurston nos 48, ninguém como eles aguentou as últimas décadas sem ceder um decibel de distorção. Em Julho preparam-se para revisitar este álbum na íntegra.
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