Em “Luv N’ Haight”, o tema de abertura de There’s A Riot Going On, a palavra “hate” adopta a ortografia do famoso bairro de São Francisco, Haight-Ashbury. Em 65, o ambiente era eufórico na cidade das flores no cabelo, e os Sly & The Family Stone estavam na vanguarda do novo som promovendo uma versão psicadélica do mais luminoso soul. A família também marcava a diferença por ser das poucas bandas em que brancos e negros, homens e mulheres, tocavam lado a lado. Stand, de 69, era o culminar da sua mensagem. A luta pelos direitos civis era liderada por Martin Luther King, Jr e o optimismo era palpável. Só que – como aconteceu a Marvin Gaye ou Curtis Mayfield – havia que acordar do sonho. E esta é a banda sonora da desilusão: em 71, King tinha sido assassinado e motins raciais varrido cidades de todo o país, o Vietname continuava a matar, a droga tinha-se transformado numa prisão e Sly Stone tinha caído na sua dependência. O sonho hippie deixava a boca amarga. Mas no centro daquele que é um álbum cheio de paranóia e claustrofobia, de indignação e nostalgia, está ainda algum do melhor funk-rock do seu tempo, com convidados como Bobby Womack e Ike Turner. Simultaneamente mais frágil e mais militante, o LP vira-se para o idealizado continente africano que o discurso político do Black Power construía, mas é incapaz de fechar totalmente as portas à década anterior. O single “Family Affair” transformou-se num êxito e o álbum levou o mesmo caminho, numa altura em que era difícil ser-se apanhado a sorrir.
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