Estava o jazz resolvido em meia dúzia de obras-primas, a música africana saudada, os mitos dos fora-da-lei norte-americanos honrados e Brigitte Bardot tornada troféu. Fundamentalmente, estava o mundo inteiro chocado e seduzido com “Je T’Aime… Moi Non Plus”. Ainda assim, Histoire De Melody Nelson é daqueles poucos casos em que o tema de uma obra artística é hoje ainda menos aceitável do que na data da sua criação. Em 71, muitos olharam de lado para Gainsbourg quando editou este nabokoviano álbum conceptual, contando a história da corrupção de uma rapariga de 15 anos às mãos de um homem muito mais velho – mas o mundo continuou a girar. Hoje seria outra a recepção a esta obra inspirada
pela nova Lolita, Jane Birkin. É ela na capa, com 22 anos, grávida de Charlotte, entregue a um homem de 43 (enfim, Antonioni havia-a despido primeiro em Blow-Up). É o álbum de rock mais ambicioso e conseguido de Gainsbourg. Gravado em Londres com uma orquestra de cinquenta elementos e um coro de uma centena, é um sonho megalómano tornado realidade. Tudo com arranjos de Jean-Claude Vannier, que um ano depois editaria o delirante L’Enfant Assassin Des Mouches. Gainsbourg faz, talvez, menos do galã que quase atropela a menina de bicicleta no seu Rolls Royce – antes de lhe fazer a corte e seduzir – e mais do homem de meia-idade que sonha sentado na esplanada. Acaba por matar Melody na história, talvez como castigo a si próprio ou apenas por perceber que certas coisas só se sujam nos sonhos dos homens. John Zorn, Massive Attack, Portishead, Mick Harvey e Pulp agradeceram.
Para comentar este artista é preciso registar-se primeiro.
Não existem comentários. Sê o primeiro a deixar um comentário.