Inicialmente mais interessado na vida literária do que musical, Richard Hell publicou em 73 The Voivoid, supostamente inspirado por nomes tão
obscuros na Nova Iorque dos anos 70 como Gérard de Nerval e o Comte de Lautréamont. Segundo Cult Fiction – A Reader’s Guide, o livro pode
ser visto como representando uma intraduzível “dandification of degradation”. Precisamente a intelectual glorificação da decadência que iria
pôr em prática. É o que acontece quando se vai para uma instituição para rapazes problemáticos, se conhece Tom Verlaine, se foge em conjunto
e, após várias peripécias, se acaba em Nova Iorque a trabalhar na mesma loja que Patti Smith. Inspirados pelos New York Dolls e pelos
Stooges, Hell e Verlaine formaram os Neon Boys, para depois os transformar nos Television. Mas Hell não queria ficar na sombra e seguiu em
frente. O punk de Blank Generation não é agressivo no sentido convencional – aliás, de convencional não tem nada. E a interpretação vocal de
Hell é simultaneamente um lamento de blues, uma declamação poética e um Elvis moribundo; ouvem-se solos de guitarra do sobreexcelente
Robert Quine e quase dá para dançar ao som de algo que se aproxima a um rock’n’roll idealizado por Edgar Allan Poe. A versão de “Walking On The Water”, dos Creedence Clearwater Revival, é prova da originalidade e ausência de regras do primeiro punk (a edição em CD fecha com uma versão de “All The Way”, popularizada por Sinatra). E, já agora, as T-shirts rasgadas, os alfinetes- -de-ama e o cabelo espetado foram todos invenção sua.
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