Quando o fim do mundo está iminente nada como reverter aos prazeres da vida. Se Decameron tinha popularizado a ideia no século XVI, Prince actualizou-a para o fim de milénio. Mas se as suas raízes estivessem nos semelhantes impulsos de Marvin Gaye ou Isaac Hayes, a sua inclusão nesta colecção seria mais do que discutível. Se nunca ignorou a sobriedade do soul romântico ou do lúbrico funk de uns Ohio Players, surge aqui na exacta medida em que herda igualmente o mais sensualmente psicadélico em Jimi Hendrix ou Funkadelic e,fundamentalmente, por ter sido no pop-rock do seu tempo que melhor se avaliou o impacto da sua produção. Visto à distância, 1999 é um milagre. Temas longos, abuso do sintetizador e de todo o tipo de virtuosismo instrumental, mais sintonia com as ruas e com as pistas de dança do que o Rick James de “Super Freak”, ilações sobre o new wave em pleno processo histórico, referências esclarecidas ao hip hop e à imprensa musical – tudo sem pestanejar por um segundo num posto de vigília que a pop sabe deixar tenso e insípido. E se bem que os diamantes e as pérolas estão mais perto do arranque, (em “1999”, “Little Red Corvette” e “Delirious”), a festa prossegue até de madrugada, entre carros velozes e mulheres ainda mais rápidas, sintetizando um manual de frases de engate: de “A body like yours ought to be in jail cuz it’s on the verge of being obscene” a “Excuse me but I need a mouth like yours to help me forget the girl that just walked out my door”. Em jeito de postulado, relembra: “I don’t care to win awards, all I wanna do is dance.”
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