Loveless ou Metallica encerravam capítulos. Nevermind ou Blue Lines abriam outros. Mas nada brilha com a intensidade de Screamadelica. Numa colorida explosão que embaraça o prisma na capa de Dark Side Of The Moon, tem Andrew Weatherall, Hugo Nicholson, Jimmy Miller e Orb envolvidos nos seus bastidores, e até os Masters At Work transforma em conservadores de museu. E depois tem Bobby Gillespie: parte Mick Jagger ainda para as curvas, parte George Clinton ou David Johansen sem os passos de dança e o roupeiro feminino, e aura envolvida no mesmo fumo de Lee Perry, ombreia com a voz do Reverendo Jesse Jackson em “Come Together”, a de Peter Fonda em “Loaded” e com coro gospel em “Movin’On Up”. Como se diz dos anos 60, quem se lembra não esteve lá. Se o álbum é metáfora para uma viagem movida a químicos, esqueceu-se de incluir a ressaca: começa a subir no primeiro tema e quando abre os olhos já vai “Higher Than the Sun”. Em “Come Together” ouvem-se foguetes a rebentar ou uma multidão a bater palmas? Pelo meio há “Damaged”, com chocante espojamento (como se alguém se tivesse lembrado de que eram uma banda de versões dos Byrds), mas nova dose recoloca tudo no rumo certo. Os sons de respiração artificial que abrem “Higher Than the Sun” talvez sejam nossos, numa UCI, mas que importa? Somos todos poeira das estrelas. Os Primal Scream ganharam o primeiro prémio Mercury, mas parece que a festa foi tal que o perderam. Criaram sísmica alteração de paradigma na pop dos anos 90 e ao fechar a década tentaram um desencantado manifesto com XTRMNTR. Enfim, terão sempre Ibiza.
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