Um ano antes, Naomi Wolf tinha posto em causa as indústrias da moda e beleza por explorarem o corpo feminino coagindo as mulheres a perseguir um ideal irrealista de beleza. Nos tops de vendas de música encontravam-se Vanessa Paradis, Madonna ou En Vogue – todas, aparentemente, concordando que o mais alto destino para uma rapariga é o conquistar de passerelles. Dizer que o rosto de Polly Jean Harvey foi uma visão é pouco: e nem foi tanto por não se encaixar nos ideais clássicos de beleza, mas antes por demonstrar uma atitude que parecia não esperar outra coisa senão a adoração dispensada às supermodelos da Vogue e Elle. Mais ainda, Harvey, algures entre o feminismo de Patti Smith e Lydia Lunch, lutava pelo direito das mulheres em, caso lhes apetecesse, humilharem, exibirem e sujarem. Criada num ambiente rural em que as virtudes femininas estão mais próximas das ancas largas e braços musculados de “Shela-na-Gig”, PJ conseguiu escapar ao mais embrutecedor da cultura juvenil sem cair no isolamento. Os pais deram-lhe a ouvir blues, jazz e rock experimental, que com o pós-punk nova-iorquino constituem a sua espinha dorsal de referências. Até a habitualmente conservadora Rolling Stone se rendeu aos sovacos não depilados e a consagrou enquanto Songwriter e Best Female Singer do ano. Deusas celtas, Sansão e Dalila e mulheres caídas são os santos no altar – a esta religião só adere quem quer – e o único conselho é uma ablução entre pecados. O modelo para o mais visceralmente uterino de Garbage, Liz Phair, Cat Power, Tori Amos ou Anita Lane.
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