Entre a intoxicação alimentar e a insolação, a visão atingiu Simon Jeffes com os versos: “I am the proprietor of the Penguin Cafe, I will tell you
things at random”. Como nos contos tradicionais, pouco importa descobrir a sua origem – são, tal como os sonhos, por definição verdadeiros em
qualquer mundo em que Carl Jung seja mais importante que Isaac Newton. A intersecção clássica/rock progressivo estava já traçada, bem
como a que unia música tradicional, jazz e rock psicadélico (como nos Pentangle). E se algumas destas melodias não destoariam de passagens
mais bucólicas em Donovan ou Cat Stevens, não há aqui sinal de raízes celtas. Comparados, os Incredible String Band eram ácidos e os Caravan pareciam hard rock. E mesmo se a nostalgia por locais longínquos (reais ou imaginários) nunca tenha andado arredada da agenda musical, nada aqui se comparava com o quarto-mundismo que Jon Hassell e Brian Eno (produtor executivo) viriam revelar ao mundo, com o peso sagrado dos Popol Vuh ou com a curiosidade pan-cultural de um Stephan Micus. A música da Penguin Cafe Orchestra, cruzando ritmos latinos com música barroca ou melodias africanas com académico minimalismo, traz antes o encanto de uma banda sonora de câmara para animação infantil passada num sítio que nunca existiu – nesse sentido é deliciosamente profana, como muito mais tarde foram Virginia Astley, Pascal Comelade, Kronos Quartet ou o L’Ensemble Rayé. Mas a interpretação do sonho fica a cargo de cada um. Como disse Jung, é só no coração que a visão é nítida – quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda.
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