Sem Patti Smith para motivar os Television e Richard Hell (cujas T-shirts rasgadas foram o ponto de partida para os Sex Pistols), talvez o punk
não tivesse existido. Pelo menos não seria exactamente aquilo que ficou na História. Intelectual, poético ou de vanguarda não foram propriamente
os qualificativos que a si se colaram, mas a mãe (se é que se pode falar de tão burguês conceito) do punk foi tudo isso e muito mais. Inspirada
tanto pelas Iluminações de Rimbaud quanto por Jim Morrison e Dylan, Patti Smith não pode ter deixado de reparar que em qualquer um dos trovadores a imagem era tão importante quanto as palavras. Daí que se deva desconfiar de quem de si fale como uma criatura indiferente ao género – Smith é toda ela mulher, encontrou apenas uma forma original de utilizar a sua imagem, definindo-se algures entre a cantora atrevida de blues, a esquálida torch singer e a americana a cantar nas ruas de Paris (o que fez mesmo). Desde James Brown que ceder em palco aos próprios demónios não tinha tanto gosto, e Smith apresentava-se como uma vítima de exorcismo ou parecia sucumbir à histeria – dois papéis que sempre acompanharam as mulheres revolucionárias. Em ecos secos de jazz escanzelado, amiotrofia reggae (de que o punk britânico também se viria a apropriar) e rock sonhado pelos beatniks, o piano de Richard Sohl, a guitarra de Lenny Kaye e a produção de John Cale surgem como constituintes indispensáveis de um clássico. Até a fotografia de Robert Mapplethorpe faz parte da lenda.
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