O apreço estético pela figura de Nico define-se pela reacção aos três temas que, guiada por Warhol, cantou na estreia dos Velvet Underground. Claro que com Fellini, Delon, Gainsbourg, Cale, Dylan, Jim Morrison, Brian Jones ou Iggy Pop discutiu mais do que estética. É costumeiro mas inevitável mencionar-se a lista dos homens a si associados. Todos a quiseram transformar: de estrela de cinema à nova face da canção, de deusa a namorada. Famosa por respostas vagas em relação ao passado, parece sempre pouco à vontade consigo mesma. Agora, se a intenção do LP era transformá-la numa Judy Collins urbana com arranjos barrocos, o projecto falhava. A flauta histriónica em “Winter Song” (tema de Cale e Reed) parece esquecer que as únicas aves para Nico são os corvos. A meio caminho entre Dietrich e a surdez, a sua interpretação vem de um universo diferente do folclore sobre trovadores e donzelas. Ainda que as histórias mais escabrosas sobre a sua infância fossem um mito, é inegável que carregava um lado negro. E é só quando se descontrai e fica com a teutónica dicção mais cerrada que revela todos os encantos de Chelsea Girl: em “The Fairest Of Seasons”, “These Days” e “Somewhere There’s A Feather” (todas da autoria de Jackson Browne, então com 19 anos e novo parceiro romântico), “I’ll Keep It With Mine”, de Dylan e “Wrap Your Troubles In Dreams”, de Lou Reed, esteve o mais próximo de sempre de cantar enquanto Christa Päffgen. Mesmo se foi com Desert Shore que procurou revelar-se. O resto foi a espiral de vício e decadência de uma dominadora caída em desgraça.
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