Não andará em órbita numa cápsula destinada a civilizações desconhecidas. Mas quem nele tropeçar sem saber ao que vai, não precisará de grande imaginação para ver Tender Prey como produto de uma mente medieval. É só ignorar ma ou outra referência tecnológica para ler as letras de Nick Cave como escritos recuperados de um herético do século XII – e até a execução de “Mercy Seat” podia facilmente dar-se numa Donzela de Ferro. Combates pela imortalidade da alma e encontros com o criador não eram temas óbvios para explorar nas fronteiras do rock dos anos 80, e, nos antípodas do materialismo dominante, foram um calvário que Cave não poderia deixar de percorrer de cruz às costas. Inspiradamente incluídos por Wim Wenders em Wings of Desire (Asas do Desejo), os Bad Seeds estavam então capazes de reconduzir ao purgatório o melhor da produção de Einstürzende Neubauten, Birthday Party, Gun Club e Magazine. Cave aproveita para levar o ouvinte numa peregrinação entre Jerusalém e o convento imortalizado por Umberto Eco, e apresenta inocentes jovens virgens para mais à frente na estrada as deixar estranguladas. É típico do Antigo Testamento contar-se apenas com o sofrimento. À ladainha é aqui acrescentado o desfilar de falsos profetas, penitências, exorcismos, pestilências e, só em dias de sorte, comunhão. Nem Bergman foi tão tenebroso. Qualquer católico caído tem de lidar com culpa e vergonha. Como Robert Johnson, Cave concluiu que, para quem faz da música uma profissão de fé, a única opção é vender a alma ao Diabo e, quem sabe, tornar-se num dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
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