Pontilhismo, doçaria em miniatura, pedras preciosas e anões de jardim fazem sentido em pequeno. Os Metallica são o oposto: como os impérios, o Cavalo de Tróia e os transatlânticos, a sua maior qualidade é a dimensão. E se às vezes é difícil lembrar que não apareceram já formados em palco em forma de diamante é porque o tempo em que o heavy metal se confundia com o underground vai já longe nas memórias. O álbum negro, após anos a baralhar e tornar a dar as regras do género, garantiu-lhes dominação mundial. Quem o colocou em causa não percebeu que não se tratava de uma cedência comercial mas sim da necessária exploração dos seus próprios fundamentos, depois de com …And Justice For All terem esquecido como compor temas sem ritmos complexos e com menos de seis minutos. E não foram logo as baladas (“Nothing Else Matters” e “The Unforgiven”) que fizeram o público recebê-los de braços abertos mas antes a identificação com “Enter Sandman” ou “Wherever I May Roam”, cuja intensidade parecia ter sido projectada a contar com o ano em que o grunge explodiria. Fruto de uma década que viu o metal transformar-se em hair metal, contrariando dogmatismo, vocabulário reduzido, falta de imaginação nos arranjos e personagens de palco que confundiam mensagem com investimento em guarda-roupa, os Metallica foram tão reais quanto o nosso vizinho do lado que gostava de Metallica. Se são responsáveis por alguma coisa perante as gerações que com eles cresceram, é por terem tornado a sublimação de sentimentos socialmente repreensíveis novamente mais difícil. Só por isso, obrigado.
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