Em 66, um DJ de uma rádio de Detroit decidiu adquirir a sala de espectáculos Grande Ballroom. Inspirado pelo Fillmore, de São Francisco, transformou- a em local de passagem obrigatória para grandes nomes do rock, como Jefferson Airplane e Grateful Dead, ou do jazz, como John Coltrane. E foi aí, em duas noites, que os MC5 (Motor City 5) gravaram o seu primeiro LP. Kick Out The Jams é o registo final, um testemunho electrizante do que era uma noite de 68 na cidade anteriormente conhecida pela Motown. Rudimentos do rock, veemência rítmica soul, entusiasmo funk, fúria hard rock – aquilo que na altura passava por um contínuo freak-out. O som no album não é o da paz e amor californianos – nem podia ser. Passado um ano sobre os violentos confrontos raciais que a tinham deixado em chamas e dominada pelo exército, esta Detroit era uma cidade a ferro e fogo. A feérica energia da banda em palco reflectia um manifesto ideológico. Inspirados pelo mentor John Sinclair (fundador do White Panther Party, a facção branca dos Black Panthers), que advogava a revolução cultural, os MC5 conseguiam ser muito mais do que um eco das suas ideias – instigam desacatos, estimulam a desobediência civil, são o equivalente sonoro da sublevação. Entre os deslumbrantes duelos de guitarras (de Wayne Kramer e Fred Smith), passam por um “Starship” de Sun Ra e um apropriado “Motor City Is Burning”, gravado por John Lee Hooker. A voz de Rob Tyner vai de James Brown a uma Janis Joplin no masculino. Diz-se que o punk nasceu nesta noite. Os Stooges também achavam.
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