Para se encontrarem antecedentes directos para o que andam hoje a fazer Azure Ray, Shivaree, Cat Power ou Hem, não é preciso ir muito além de Hope Sandoval. A sua voz murmurada, envolta em camadas negras de reverberação, deu aos Mazzy Star um inesperado sucesso quando o lânguido “Fade Into You” tornou a levar muitas Perséfones para o submundo do Hades. Algures entre a sensibilidade folk da década de 60 e o pós-punk mais denso (a comprová-lo as subsequentes colaborações de Sandoval com Bert Jansch, Jesus And Mary Chain e Colm O’Ciosoig) – ou como num filme noir sobre essa intersecção – encontra-se parte da atmosfera de câmara de “So Tonight That I Might See”. Em vez de se declararem, Sandoval e David Roback oferecem-se a todas as interpretações, como um espelho esfumado: desejo ou solidão, intoxicação ou clareza, independência ou servitude, força ou fragilidade? A interpretação de Sandoval sugere pouco mais que ambiguidades, e nem as letras nem o rendilhado de guitarras obscurecido por contínuas referências aos Velvet Underground escapam à ensombrada maturação daquilo que Roback havia ensaiado nos Rain Parade e Opal. Se Tony Visconti tivesse um dia juntado o mais nebuloso de Procol Harum ou T. Rex e decidido gravar lentas versões cantadas por um anjo em desgraça da trilogia berlinense de Bowie, andaria perto do sugestivo poder dos Mazzy Star. Talvez por tudo isto os seus temas sejam usados e abusados em séries como Sopranos e Dr. House. Dão-se a quem vive bem na sombra.
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