Cego pela luz, derretido pelo calor, abandonado num monte de entulho de um aterro industrial. Assim ficaria parte do legado dos Velvet Under – ground, não o tivesse Lou Reed recuperado para um primeiro álbum a solo. Daí que fosse tão importante provar que “Sweet Jane”, “Heroin” ou “Venus In Furs” não haviam sido acidentais. A ajuda em novo tomo chegou do Espaço através de dois discípulos tornados gurus: David Bowie e Mick Robson. Mas graças a um conjunto de canções de inigualável consistência, ficou longe dos arrebates do glam operático de uns Mott The Hoople ou T. Rex. E até a maquilhagem na foto da capa é subtil comparada com uns New York Dolls – seja como for, seria em Berlin que iria tentar domar a besta. Claro que uma versão mais polida de tudo isto resultaria primeiro nos 11 minutos de “Street Hassle”, em 78, e depois, em 82, na restauração de Blue Mask. Do doo wop à pop descarnada, da lassitude às anti-utópicas voltas do destino, este é o seu primeiro tratado de amor enquanto remorso antes de perceber que não estava só – comprovado em New York, em 89. Um tom confessional nos antípodas do californiano – sem a hipocrisia de quem vivia no hedonismo de drogas e sexo para depois cantar apenas sobre corações partidos –, Reed descreve com desapego científico sobre a decadência urbana, juventude desperdiçada (em “Walk On The Wild Side”, por exemplo”) ou desvios sexuais. E se não tem em “Perfect Day” o relato dos pensamentos de um serial killer vinte anos antes de Brett Easton Ellis, anda lá perto.
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