“I am sitting in a room, different from the one you arein now” – assim começava I Am Sitting In A Room, que Alvin Lucier apresentava ao mundo em 70. O compositor ia falando, registando a sua voz, reproduzindo-a no quarto e regravando cada nova cópia até o mundo acústico que o envolvia se ver progressivamente transformado. Um acontecimento nos meios académicos que ecoava semelhante intenção na música popular. O autor era Leonard Cohen, e o impacto da sua chegada iria ter ainda maior repercussão naquilo que se passava atrás de portas fechadas. Tinha-se estreado com 33 anos e era tudo o que o rock’n’roll não devia ser (intelectual, articulado, maduro), ainda que fosse perfeito para o papel (intenso, provocador, insinuante). Mas o seu trajecto de vida colocou-o quase sempre num lugar à parte – uma ilha a que não chegaram as modas mais transitórias do seu tempo. Foi Judy Collins quem o convenceu a pisar o palco quando o seu caminho parecia mais o de compositor de secretária (além da carreira de poeta). Songs Of Leonard Cohen teve maior sucesso comercial, mas o próprio sentia que o ambiente adulto, despojado e vagamente psicótico e inóspito deste segundo LP era precisamente o que lhe convinha. Entre a Bíblia, mitos da Antiguidade e baladas medievais, Cohen traça um mapa de espiritualidade e sexualidade que coloca cada ser humano num local inacessível. Foi abraçado pelo folk, mas nunca retribuiu o favor. Quanto mais não seja porque a noção de comunidade parece estranha ao seu vocabulário – no seu mundo as personagens fazem tudo na solidão, mesmo o amor.
Para comentar este artista é preciso registar-se primeiro.
Não existem comentários. Sê o primeiro a deixar um comentário.