Em Metropolis, de Fritz Lang, a sociedade de 2026 está dividida num rígido sistema de castas entre Pensadores e Trabalhadores; os últimos, humanos, estão reduzidos à condição de autómatos; Maria vende a sua beleza enquanto dançarina de um clube nocturno, mas é uma jovem idealista que tenta apoiar a causa dos Trabalhadores; o líder da cidade colabora na criação de um robô (Maschinemensch) com feições idênticas às suas. É neste ponto, 50 anos mais tarde, que a sinopse se confunde com Man-Machine e temas como “Robots” (“I’m your slave, I’m your worker”), “Model” (“She’s playing her game and you can hear them say she is looking good”) ou, claro, “Metropolis”. Estamos longe dos 20 minutos iniciais de “Autobahn”. Paradoxalmente, é aqui que os Kraftwerk se revelam mais humanos, nostálgicos, subtis e vulneráveis. Numa visão do futuro que em 78 se deixava conscientemente ultrapassar por eventos nos dois lados da cortina de ferro, vozes panfletariamente processadas, sintetizadores e programações estilizadas não questionavam os assassinatos políticos, manifestações de estudantes, quedas de aviões e o quase mensal deflagrar de guerras civis. Até a capa evoca o visual elegante dos anos 20. É neste ponto que a mensagem dos Kraftwerk fica eminentemente estética e inevitavelmente estática, antes de se ver trancada dentro de computadores. Mas tornou-se fundamental influência no new wave, house, hip hop ou techno, e até os sotaques de Ralf Hütter e Florian Schneider eram entendidos como um manifesto futurista, quando tentavam produzir um digno Requiem para Lang.
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