Mesmo num meio que as privilegia, existem poucas histórias na música tão tristes como a de Judee Sill. Antes dos 20 anos já tinha sobrevivido a dois lares abusivos, fugido de casa, passado uma temporada num reformatório, casado duas vezes, ficado dependente da heroína, caído na prostituição e voltado à prisão. Catorze anos depois morria, na pobreza mais abjecta, de overdose.
Pelo meio, graças à sua homónima estreia, foi uma estrela do folk-rock. Com um timbre cristalino e seguro de si, Sill estava mais próxima de
Judy Collins ou Karen Carpenter do que da colega de movimento, Joni Mitchell. Mas mesmo com a oportunidade de abrir os concertos de Crosby, Stills & Nash e com os arranjos melódicos e etéreos de Don Bagley (veterano da orquestra de Stan Kenton, companheiro de Van Dyke Parks em Song Cycle e responsável por gravações de Julie London), Sill não se conseguiu agarrar ao sucesso. O álbum começa em territórios conhecidos do folk, mas, pelo caminho, secções de sopros e um intrigante piano vão ganhando complexidade, visita- se o gospel, chega-se às portas do jazz e tudo acaba por explodir numa intensidade dramática de contornos cinematográficos. Dizia que as suas principais influências eram Pitágoras, Bach e Ray Charles, como quem diz que o que está à vista é só a ponta do icebergue. Em “Ridge Rider” canta: “He rides the ridge between dark and light without partners or friends, he’s courageous enough to be scared, but he’s too humble to win”. E teve de se agarrar a essas palavras.
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