Depois de Ladies Of The Canyon, Joni Mitchell decidiu abandonar o saturado ambiente de Laurel Canyon – a rebentar pelas costuras de músicos, aspirantes a músicos e drogas –, partindo para umas férias no Sul da Europa. Os temas mais luminosos de Blue (“California” e “Carey”) narram aventuras em França, Espanha e na ilha de Creta, sem nunca sugerir que a cantora tivesse encontrado um verdadeiro lar longe da mesmíssima Los Angeles que meses antes lhe parecia insuportável. Mas a nota de optimismo cedo se desfaz: Blue é o álbum de uma rapariga de 28 anos à beira de qualquer coisa. Talvez de um colapso nervoso, de um coração irremediavelmente partido, da vida adulta ou da inevitável conclusão de que a sensibilidade artística não é uma mais-valia no mundo real. Com a excepção de “Carey”, de 67, e que se refere à bebé que Mitchell deu para adopção em 65 (e que reencontrou em 97), os restantes temas do álbum eram novos. Alguns diriam respeito à ruptura com Graham Nash, outros à relação bipolar iniciada com James Taylor pouco tempo antes – que, a lutar com a toxicodependência, estava longe de ser o seu companheiro ideal. O que é certo é que pouco depois de chegar de férias, Mitchell parecia a mulher mais cansada do mundo. A sua fragilidade emocional era tanta que fez questão de gravar Blue sozinha em estúdio. E, para bem de todos nós, isso ouve-se. É que, mesmo na idealizada ilha deserta, é preciso contar-se com uns dias de chuva. Está para o pop-rock no feminino como Aretha Franklin para o r&b e hip hop.
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