Acompanhado por músicos dos Fairport Convention e Pentangle, o John Martyn que se ouve em Solid Air não é o que se esperava. Pelo menos para quem andasse a fazer a ronda dos clubes britânicos de folk desde 67 e o recordasse das gravações com Beverly Martyn. O jornalista do Melody Maker, Andrew Means, descreveu-o em 72 como “a one-man Pink Floyd” e era chegada a hora de se perceber porquê. Martyn, utilizador cada vez mais fluente dos efeitos sonoros do echoplex, tinha os pés bem assentes no blues, mas mergulhava finalmente numa dimensão espacial que inaugura uma dissonante atmosfera para a sua linhagem. Até a sua voz assume na maioria dos temas uma qualidade meio baça, titubeante e quase incompreensível, como os seus heróis dos anos 20 gravados ao longe em campos de algodão. “Solid Air”, tema escrito após a morte do amigo Nick Drake, revela-o num mundo transformado pelo jazz (com a presença do sempre judicioso Tony Coe), que nas oito faixas seguintes tanto reforça como subverte. “I’d Rather Be The Devil”, de Skip James, faz várias inversões de marcha, terminando numa errática improvisação depois de ter passado mais de quatro minutos como um tema rock. No melancólico “Over The Hill” veste a pele do trovador de que todos tinham inveja e em “Go Down Easy” oferece exímio bucolismo. “Dreams By The Sea” não destoaria num disco de Curtis Mayfield. “May You Never” é puro folk nova-iorquino da estirpe Simon & Garfunkel e ganhou versão de Eric Clapton. É o disco que Terry Callier andou a vida toda a tentar gravar.
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