Seria tudo mais fácil se John Cale tivesse nascido no século XIX. Até porque o esforço em compreender o seu legado tem sido demasiado para esta era, e, regra geral, não tem funcionado a seu favor. Tudo em Cale é anacrónico, desde a infância numa vila mineira galesa até a uma primeira carreira de menino-prodígio, submetendo composições à BBC como um Mozart decidido a agradar ao Arcebispo de Salzburgo. Com a ida para Nova Iorque e o ingresso nos Velvet Underground, o facto de Cale ser um académico sem casaca e um viajante no tempo ficou algo mascarado; disfarce que melhorou no papel de produtor para Nico, Patti Smith ou Stooges. Mas nunca se quis assumir como um padrinho omnisciente da música moderna, como o colaborador Brian Eno. Talvez seja nesta nova sociedade eternamente mergulhada numa derradeira melancolia que reclama um estatuto noutro tempo atribuído a David Bowie – embora outras vezes pareça mais confortável como uma réplica de si próprio com vida natural num dos filmes do ano, Blade Runner. Tragicamente, Cale acompanha-se melhor com intervalos: em Paris 1919 nostalgicamente rendido ao folk de câmara; neste espartano e desencantado retrato que acalmou instintos violentos; no poético sinfonismo de Words For The Dying ao
fechar a década de 80; no virtuoso, retrospectivo e sentimental recital a solo de Fragments Of A Rainy Season; no enérgico Hobosapiens, de 2003. E se é difícil falar de Music For A New Society, não adiantará muito explicar que tudo isto é nele convergente ou divergente. Cale descreveu-o como romântico, freudiano e tortuoso. Viena, 2175.
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