Nunca a sensibilidade teve tantas honras de naipe de trunfo.
O que aproximava Kurt Cobain de Grant Lee Phillips, Billy Corgan ou Mark Kozelek?
Pronta a ser definitivamente explorada até à exaustão, a vulnerabilidade emocional franqueada pelo discurso de alguns dos mais visíveis escritores de canções de inícios da década de 90 conduziria com desnecessária urgência ao maniqueísmo.
Inspirado em partes iguais por Edith Piaf, Led Zepellin, Alex Chilton ou Nina Simone, o filho de Tim Buckley parecia chegado de outra era.
Num equilíbrio entre ascese e sensualidade – não distante de duas outras influências que para sempre o iriam assombrar, Van Morrison e Leonard Cohen –, delicadeza da sua proposta consagra-se à melancolia como fundamento afectivo, guiada por arranjos que permitem o reconhecimento da sua voz em simultâneo como acto de expiação e redenção.
Uma das chaves para compreendermos Grace é a virtuosa interpretação da peça de Benjamin Britten, “Corpus Christi Carol”, em que a paixão romântica conduz ao encontro com o sangue de Cristo, mas nada irradia tanta luz sobre Grace quanto a versão do “Hallelujah” de Cohen, nos últimos anos usada e abusada nas típicas montagens de fim-de-episódio de séries como Dr. House, O.C. ou West Wing.
Em “Grace” canta “Well it’s my time coming, I’m not afraid to die” e em “Eternal Life” reconhece “Eternal life is now on my trail”.
Na noite de 29 de Maio de 1997 mergulhou no rio Mississippi. O seu corpo foi encontrado seis dias depois.
Tinha 30 anos.
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