Ornette Coleman fazia free funk desde Body Meta, mas James Chance inventava free disco sound. E nos movimentos mais subterrâneos de uma
cidade à beira de ganhar crónica em No New York, isso era bem mais significativo. De certa forma, cumpria um dos possíveis destinos de
Albert Ayler. Elasticidade rítmica, permeabilidade melódica, ameaçante sensualidade, e nem um sinal de compromisso estético com qualquer
visão que não a sua. Era verdade para o Ayler de New Grass e a mesmíssima realidade em que se movia o saxofonista James Chance. Sobre a exaltante e vital cena artística de Nova Iorque já muito foi dito: dos Suicide aos Bush Tetras, dos Television aos Theoretical Girls, dos Talking
Heads aos Liquid Liquid, dos DNA a tudo o que, com a ajuda de Larry Levan, a editora ZE sintetizou nas colectâneas Mutant Disco, vivia-se a partir do punk a prática demonstração da ausência de regras. Chance havia tocado com Lydia Lunch nos Teenage Jesus And The Jerks, mas foi
enquanto líder – primeiro com os Contortions e depois com os Blacks – que arriscou ir mais longe do que Arto Lindsay ou Glenn Branca, em
ruído, dissonância, abrasão e um vertiginoso desnorteio que culminava em poses de palco entre Jerry Lee Lewis, James Brown ou, pior,
Travis Bickle, e que, inesperadamente, ganhava epítome num “Don’t Stop ‘Till You Get Enough” de Michael Jackson, que adorava tocar em concerto. Entre gritos ao saxofone e uma banda com o dobro de testosterona de uns Cameo ou Defunkt, é uma das fronteiras máximas desta colecção.
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