Naqueles momentos de desespero existencial, os fãs de jazz moderno acendem uma vela a John Coltrane, os de country a Hank Williams, os de
rock a Lennon ou Jim Morrison – dependendo da localização geográfica e grau de pretensiosismo –, mas quem acredita nos princípios morais do
punk vai sempre até ao Santo Iggy, ainda que ele nunca os tenha deixado. A razão é simples: enquanto Rotten e Strummer andavam a ser
assaltados pelos colegas de escola, Iggy ia já na segunda ou terceira banda. Em 68 saiu o primeiro álbum dos Stooges, directo para as mãos de
futuros punks. Poucos anos depois, a Elektra despediu o grupo, convencida de que o cantor haveria de morrer de overdose ou em palco, enquanto se atirava contra tudo e todos. Entra em cena David Bowie e Iggy Pop vê-se a sobreviver em Berlim. Dos dois álbuns produzidos e em grande parte escritos por Bowie, é aqui que se dá um renascimento. Lust For Life faz justiça à fotografia de Iggy na capa: todo ele é entusiasmo de final de liceu, antecipação da vida futura e energia mal contida. Com os irmãos Sales – Hunt na bateria e Tony no baixo – comandando um as salto digno do seu tempo, com ferocidade e ve emência rítmica capazes de aguentar qualquer cantor, Iggy estava novamente amparado. E a sua modelar intensidade era uma confirmação da exuberante lascívia referida no título. E depois há “The Passenger”, que tanto pode ser uma ode às alegrias de seguir num carro por uma noite estrelada como um outro tipo de viagem. Não faz mal: os seus fãs também estavam prontos para tudo.
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