Há, no jazz, um antes e depois do “Love Supreme”, de John Coltrane. Na São Francisco do Verão do Amor há um antes e depois de “Dark Star”. Os Grateful Dead eram famosos pelos seus concertos gratuitos na cidade, e, em troca, transformaram-se no grupo da História com a mais devota legião de fãs, os Deadheads. A outra referência óbvia para o rock psicadélico é a viagem alimentada a alucinogénios. E o LSD de uns era a heroína de outros. Mas não seria por falta de estímulos que se deixariam de apreciar as hipnóticas improvisações dos Dead. Assim como não foi pela perda de parte do dedo médio na infância que Jerry Garcia deixou de se transformar num guitarrista de sessão a que tanto recorria Bob Dylan quanto Ornette Coleman. É tudo uma questão de perspectiva. E se há coisa que Live / Dead pode fazer é mudá-la: pode ser o primeiro sabor a jazz para quem pense não o apreciar; o primeiro álbum de rock compreendido pelos discípulos de Trane; o primeiro LP hippie para um punk; a primeira batata frita para quem não coma sal. É a primeira tentativa de captar o som dos Dead ao vivo, no seu ambiente natural das salas Avalon e Fillmore. E, já agora, de repor o nível nos cofres depois do falhanço de Aoxomoxoa. O registo não se equivale, claro, restrito que está ao vinil – em que nem os quatro lados chegam para o despontar cósmico de espectáculos a rondar as quarto horas. Mas, em disco, os 23 minutos de “Dark Star” já pareciam uma sinfonia. No início, a audiência está tão silenciosa que reforça o misticismo da experiência – seria Jerry Garcia Deus? Pelo menos já é um sabor de gelados – o que nos dias que correm andará lá perto.
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