Lembram-se quando os robôs iam revolucionar o mundo? Foi antes de terem acabado a aspirar casas. E já estava quase tudo dito nos dois primeiros álbuns com os Tubeway Army. Mas agora iria tornar-se pessoal. Entre o episódio I e II de Star Wars, reinventou-se Gary Numan (o apelido foi adoptado, e não será por acaso que é homófono de “new man” – homem novo), como uma espécie de Skywalker do pop sintetizado e um jovem aventureiro à procura de sinais de inteligência artificial. Acabou por fazer dobrar os sinos pelo punk e deixar abertas as portas ao império de sofisticação e gélidas expressões faciais que adivinhava no futuro. Os anos 80 tinham começado antes do previsto. “Cars” conquistou o público norte-americano (que talvez não tenha inteiramente percebido que se tratava de um elogio à tecnologia em geral) e chegou ao primeiro lugar da tabela de vendas do Reino Unido. Inspirado em partes iguais pelo mais cíclico e formulado nos Kraftwerk, por uma visão teatral do glam
reconvertida pelos Ultravox (o violinista Billy Currie surge aqui) e pelo que de mais teórico e atmosférico Brian Eno e David Bowie gravaram
juntos, Numan inventou uma personagem mais misteriosa que Stardust. Dizer que a crítica não sabia como o interpretar, aos 21 anos, é pouco:
parece que alguns jornalistas estavam à espera que tivesse também nas entrevistas os robotizados tiques e discurso que exibia em palco. Mas a
letra de “Conversation” explicava muito: “We are not Gods. We are not men. We are not making claims. We are only boys”. Hoje, sabemos que os andróides também têm sentimentos.
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