São a possível resposta negra a uma combinação que nunca existiu: a dos Mothers Of Invention, de Frank Zappa, com os Can, numa genealogia que parte de Sly Stone, Jimi Hendrix ou Sun Ra e que se estende até Prince, Dr Dre ou Jimi Tenor. Seja como for, quando em 78, em One Nation Under A Groove, perguntavam “Who Says A Funk Band Can’t Play Rock?”, é óbvio que a questão seria meramente retórica. Afinal, há quase dez anos que os Funkadelic demonstravam autoridade sobre o idioma. Criados para acompanhar outra banda de George Clinton, os Parliament, mostravam ao que vinham logo no título do seu segundo álbum: Free Your Mind… And Your Ass Will Follow. E por mais que uns Temptations comandados por Norman Whitfield sugerissem viajar para os astros, poucos revelavam igual domínio sobre as leis da gravidade. Maggot Brain é o terceiro LP dos Funkadelic, e aquele em que sintetizam melhor os seus interesses. A guitarra de Eddie Hazel funciona como motor, em enérgicas explosões, prismáticas emissões de luz e impulsiva combustão psicadélica. Por outro lado, equivalia tudo a uma colectiva exploração de um mundo revelado pelo LSD. Gritos lunáticos, mensagens subliminares, chamadas para viagens interplanetárias, ecos de um paraíso em que a única banda sonora nasce de acordes tocados aleatoriamente por Hendrix, o toque de alvorada num mundo em que o sexo é tão comunitário quanto uma ida à igreja. O equivalente para a fisiologia auditiva às pretensões que, um ano antes, o filme Gas-s-s-s promulgava para a experiência cinematográfica: imagens que passem directamente no interior do olho humano.
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