Não há dúvida de que a Primavera deve muito aos Free Design – e mesmo os que não eram ainda nascidos em 67 deveriam pagar a dívida todos os meses de Março com uma audição de Kites Are Fun. Em pouco tempo, o rock convenceu-se de que era adulto, sensual e revolucionário, e as melodias foram rejeitadas como reaccionárias e fechadas numa gaveta, em conjunto com o sentido de humor e os prazeres mais simples da vida (ou seja, tudo o que não requeria LSD). Um pouco mais cedo e os irmãos Chris, Bruce e Sandy poderiam ter sido os The Mamas And The Papas da costa leste, com uma fórmula sofisticada e aromatizada por jazz e bossa nova. Chris escrevia a maioria das canções e Sandy era a intérprete feminina que tanto evocava uma cantora de cabaré quanto uma folkie de rua. O seu pai era músico e tinham crescido a cantar em harmonia. Mal começaram a tocar por clubes de Nova Iorque, despertaram a cobiça de editoras, mas com invulgar presciência escolheram o selo de Enoch Light, que lhe garantia controlo criativo e superior engenharia de som. Kites Are Fun tem nove temas originais e três versões que ilustram bem o seu universo: o folk de Paul Simon com “59th Street Bridge Song”, o pop dos Beatles com “Michelle” e a chanson ligeira de Francis Lai do filme Un Homme Et Une Femme (Claude Lelouch, 66). Cornelius, Belle And Sebastian, Pizzicato Five, Stereolab ou High Llamas descobriram o encanto dos papagaios anos depois. Mas o seu tempo foi-lhes ingrato. Se tivessem estado na Califórnia ao lado ainda de Beach Boys ou Association, as coisas teriam sido diferentes.
Para comentar este artista é preciso registar-se primeiro.
Não existem comentários. Sê o primeiro a deixar um comentário.