Na vida há que ter um certo cuidado com a aparência. E só os muito ingénuos pensarão que não somos todos julgados pelas primeiras impressões. Kevin Rowland utilizava já a forma como conteúdo no início de 80, e, numa década conservadora e remissa no sentido de humor que requer mais ginástica mental, a mudança de guarda-roupa entre o vídeo de “Come On Eillen”, em 82, e esta capa deixou confusos muitos adolescentes.
A folha que o acompanhava explicava muito: “The words don’t quite fit the songs but they read better this way”. A inspiração pode ter partido dos movimentos socialistas da República irlandesa, mas a fleuma britânica, uma preocupação com classes desprivilegiadas, um pé a escapar para considerações que mais do que metafísicas são excêntricas e a sempre presente sombra da História compõem o bouquet de hipocondria cultural que muito inspirou Jarvis Cocker e Damon Albarn. Comparados, Mike Scott ou Bob Geldof foram pouco mais que uns Van Morrison de trazer por casa. É rebuscado mas há quem chame a este disco um Pet Sounds para a soul branca dos anos 80, muito pela unificadora visão que Rowland impôs com punho de aço (como fazia, simultaneamente, uma malfadada senhora à Grã-Bretanha), a ponto de se recusar a escolher um tema para ser lançado como single. Foi um tudo ou nada que em termos de carreira não resultou bem, mas também não é de espantar: em 85 era-se yuppie das 9 às 5 e da música queria-se algo com mais volume capilar e chumaços.
E nem pensar em prismáticas canções de sete, oito ou doze minutos: o Brothers In Arms chegava.
Para comentar este artista é preciso registar-se primeiro.
Não existem comentários. Sê o primeiro a deixar um comentário.