Da restauração do blues-rock à orwelliana paranóia conspirativa, da ambiguidade sexual ao melodrama de Ziggy Stardust, da revisão da música
britânica da década de 60 ao mod, do glam ao proto-disco sound robotizado, em 10 anos, Bowie não deixou pedra por levantar. Para a aceitação de experiências expansivas e arriscadas, impôs a sua voz – e imagem – como único fio condutor; e no culto de personalidade a tolerância para tanta diversidade estética. Mas a vertigem cedo conduziria à exaustão ou à ressaca. Foi aí que entraram Brian Eno, Tony Visconti, Robert Fripp, Iggy Pop e, fundamentalmente, a cidade de Christiane F. Low surgiu como primeiro tomo de uma atmosférica e pós-tecnológica investigação sobre os fundamentos espaciais da canção – ou das motivações e ambições de Bowie – para logo se transformar num estudo sobre a alma europeia. Heroes veio tornar tudo ainda mais claro e concretizar aquilo que era ficção no Berlin de Lou Reed. Permeável ao que faziam Cluster, Kraftwerk ou Neu! – sem obsessão metronómica –, não surge tão concentrado nas canções como Lodger (que haveria de fechar a trilogia), terá ganho inspiração na imagem de um casal abraçado à sombra do Muro de Berlim, mas é simultaneamente um profundo retrato do artista com metáfora numa cidade dividida e em luta para recuperar lendária modernidade. Heroes é RDA e RFA numa só; invulgar ponto de sincronia entre o amadurecimento de um homem e o envelhecimento do mundo. Ganhou meio-irmão no The Idiot, de Iggy, produzido por Bowie, em que até as capas – inspiradas por Eric Heckel – sugerem a mesma escultural abstracção.
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