A ácida ironia que David Ackles emprega nas suas histórias sobre a sociedade americana e o mundo do espectáculo torna quem as ouve muito menos caridoso face a grande parte da música de início dos anos 70. Confrontados com a sofisticação e elegância das letras, e o eclectismo
erudito das influências musicais – não distante de arranjos de Weill e seus ecos em Brel ou Scott Walker – começa-se a experimentar o absurdo de American Gothic não ter sido saudado como a obra-prima que obviamente é. Ackles tinha 35 anos e estava na indústria de entretenimento desde os quatro – mas não se encaixava na cena do country-rock. Por temperamento e educação, tinha a sensibilidade necessária para escrever coisas como “They suffer least who suffer what they chose”, em “American Gothic”, ou a perspicácia para traçar vinhetas da classe operária como “When there’s time for thinking I spend it drinking up my failure”, de “Another Friday Night”. Inspirado pelo teatro musical, Ackles aplica a sua cuidada dicção dramática na criação de pequenas cenas, encarnando os protagonistas com perfeccionismo e, naturalmente, actualizando o tempo do homónimo quadro de Grant Wood e dos romances de Faulkner ou Flannery O’Connor – entre ecos de Guthrie e do futuro Springsteen. Foi o seu terceiro LP. Um ano depois despedir- -se-ia, retirando-se para uma vida de docente e compositor. A provar que não se é profeta na própria terra, gravou-o em Londres, foi produzido por Bernie Taupin, o maestro é Robert Kirby (então orquestrador para Nick Drake ou Vashti Bunyan) e ganhou defensores em Elton John ou Elvis Costello.
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