Como entretanto já se tinha aprendido com Robert Zemeckis, viajar no tempo é perigoso: a presença do observador basta para alterar a História. Os Cowboy Junkies apropriaram-se de um cancioneiro de outra era e, pelo caminho, mudaram muita coisa. Não porque fossem os primeiros ou os únicos a fazê-lo (até em Portugal se ensaiou equivalente resgate n’Os Dias da Madredeus, também ele gravado numa igreja), mas mais por terem sabido incluir no processo de Trinity Session elementos transfigurados do seu próprio tempo – slow-core, sad-core, alt-country, enfim, todas as tendências dominantes na pop acústica até final da década de 90. Exactamente na medida inversa do promovido pelos Waterboys em Fisherman’s Blues, sucumbindo os escoceses sob o peso da herança cultural. Aqui, de Rodgers e Hart (com um presleyiano “Blue Moon”) a Hank Williams, de Patsy Cline aos Velvet Underground, passando por originais, tudo recebe o mesmo tratamento vagamente tóxico ao ser decomposto pela etérea voz de Margo Timmins, enquanto rabecas, bandolins e harmónicas revertem a uma quimérica ideia de folclore. Gravado numa igreja de Toronto, Holy Trinity, em apenas uma noite e através de um solitário microfone, é um paradoxal exercício de extrema intimidade e simultânea aspiração a espaços abertos. Nada relembra a grandiosidade associada aos grandes templos católicos. Trinity Session evoca mais o som de um palácio de cristal numa pradaria ao cair do sol. E quem ouvisse com atenção, conseguiria adivinhar a inspiração sonora para Twin Peaks, já ali ao virar da esquina.
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