Foi aqui, resolvendo uma mórbida propulsão rítmica – tão em voga nos Cure, Siouxsie And The
Banshees ou nos P.I.L. –, modelar implosão de centros tonais e uma tóxica propensão para o
épico, que os Cocteau Twins produziram matéria capaz de desafiar o tempo e a História. E, ganhando confiança para despir as canções de estratos, sedimentos e previsíveis erupções melódicas, permitiram na nominal fantasia de Treasure – entre espirais de efeitos nas guitarras de Robin Guthrie, programações rítmicas de impacto narrativo pontilhadas por espanta-espíritos e o ondulante baixo de Simon Raymonde – a revelação total da voz de Elizabeth Fraser. Dizer que soava a alguém com rigorosa dieta folk inspirada no mais infantil de Kate Bush e no mais espectral de Siouxsie Sioux pecava por defeito – daí a referências na imprensa à “voz de Deus” foi um passo. Refugiou-se numa timidez que mais
depressa a empurrou para sons do que para palavras – e, num código secreto estranhamente
descritivo e feminino, falou de ninfas, santas, deusas e poetas. Entre os singles Tiny Dynamite e Love’s Easy Tears e os álbuns Victorialand e The Moon And The Melodies (este com Harold Budd ao piano), tudo haveria de se transformar num pastoral exercício acústico até se dissolver na sua própria fórmula. Os anos responderam à questão que levantavam ao sexto álbum (Heaven Or Las Vegas). Ou melhor – tal como outro ícone vocal da década, Lisa Gerrard –, Fraser ficou entre o céu e Hollywood. Mas não é de estranhar que tenha cantado os lamentos dos elfos de The Lord Of Rings (O Senhor dos Anéis) – afinal, ela praticamente inventou a Língua.
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